Curvas de Corpo

Todo piloto sabe que ao inclinar o corpo o parapente entra em curva para esse mesmo lado, mais ou menos como uma bicicleta aérea.


 

Inclinar o corpo para fazer curvas é um dos "baratos" do voo de parapente!

Inclinar o corpo para fazer curvas é um dos "baratos" do voo de parapente! Piloto: Kiko.

O que nem todos sabem é o porque, qual o mecanismo das curvas de corpo, também chamadas de curvas de selete ou, como dizem os voadores franceses, pilotage aux fesses, que numa tradução livre é algo como “pilotagem de bunda”. Nada a estranhar, afinal são as nádegas que se apoiam sobre a selete (cadeirinha) e são elas que transferem o peso para o mesmo lado do velame para o qual inclinamos. Aliás, o termo técnico que designa com precisão a curva de corpo é exatamente esse, curvas através da transferência de peso.

Ao perguntarmos a opinião de pilotos e instrutores ou pesquisarmos na WEB, esse aparece como único ponto de consenso, a curva ocorre porque o lado da inclinação fica mais pesado. Mas porque? Afinal, quando se carrega mais uma asa ela voa mais rápido, então o lado inclinado, mais pesado, deveria tornar-se mais veloz, resultando em curva para o lado oposto!

Ai cada um fala uma coisa, para se ter uma ideia, eis um trecho (veja a íntegra neste link) traduzido da excelente revista eletrônica francesa Voler Info, edição de abril de 2013, dedicada inteiramente às virages (curvas): “As diferentes análises da pilotagem através da transferência de peso não são unânimes. É a mudança do centro de gravidade na direção da curva que induz o movimento de rolagem, ou será que há outros fatores determinantes?”

A selete influencia muito, principalmente determinando a distância entre os tirantes. Foto: Voler Info.

A selete influencia muito, principalmente determinando a distância entre os tirantes. Foto: Voler Info.

Notem que é mencionada a “mudança do centro de gravidade”, essa é uma das explicações que pilotos veteranos mais usam, não bem como uma explicação, mais para encerrar o assunto mesmo, dizendo simplesmente que “o parapente vira porque muda o CG, porra…” Outra que entrou na moda há pouco tempo é l’effet girouette (efeito catavento) várias vezes mencionado no fórum fracês Parapentiste Info (veja neste link), mas que, além de não ter muito pé nem cabeça, acho eu, dependeria da formação de um “degrau” no meio do velame, mais baixo para o lado da curva. Acontece que certos velames não formam esse degrau ao deitar o corpo, pois as linhas de ambos os tirantes vão até o meio da vela, ao contrário dos que formam degrau por terem bandas de linhas separadas, não havendo ancoragens na célula central. E essas velas sem degrau viram numa boa com o corpo.

Aqui o leitor poderia exclamar “mas pra que saber como funciona, interessa é que funciona, raios”. Concordo até certo ponto, antes de prosseguir devo frisar que curva de corpo é técnica essencial de pilotagem, tanto para segurança como para desempenho. Suaviza curvas, permitindo ganhar mais altura em térmicas. Facilita a entrada e acentua qualquer curva desejada. Permite pilotar enquanto seguramos orelhas fechadas. Entre outros fatores positivos. Então, mais do que entender o funcionamento, a prioridade é treinar curvas de corpo na prática, sem dúvida.

Mas se ninguém houvesse entendido como funcionavam as primeiras lâmpadas incandescentes, dificilmente teríamos lâmpadas de LED hoje. Voltando ao voo, provavelmente o entendimento do mecanismo de curvas possibilitou grande parte da evolução dos equipamentos, incluindo tecnologias como a dos velames full reflex, hoje usados apenas em paramotor mas que levou esse tipo de voo a um outro nível de velocidade e segurança. Bem, se você não é do tipo que se interessa por como as coisas funcionam, dificilmente estará lendo isto, então vamos pular essa parte de convencer sobre a importância do estudo teórico.

Cruzar uma perna sobre a outra ajuda nas curvas de corpo.

Cruzar uma perna sobre a outra ajuda nas curvas de corpo. Piloto: Kiko.

Vejamos a comparação de dois trechos escritos sobre o mesmo tema em épocas diversas por Mario Arche, instrutor e campeão espanhol, autor de Parapente Iniciação, excelente livro que vem sendo reeditado e atualizado desde 1991, quando li a primeira edição. Nesta dizia “Ese desequilibrio  de cargas en las dos medios alas provoca que la interior, más cargada, eleve su angulo de incidencia, se deforme más y pierda velocidade…” (Parapente Iniciación, editora Perfils, 1991, página 77). Vejam que ele também era defensor dessa ideia paradoxal de que uma asa mais pesada perderia velocidade. Se fosse assim os pilotos de competição jamais iriam usar lastro, iam querer ficar levinhos para chegar primeiro no gol.

Mas duas décadas depois, na edição de 2010, Arqué escreveu, “Ao sobrecarregar metade do parapente, esta afunda mais enquanto que, ao descarregarmos o peso do outro lado, aquele afundará menos. Assim conseguiremos também inclinar o parapente e por conseguinte, de forma automática, girar.” (Parapente Iniciação, editora Perfils, edição em português de 2013). Vejam que, agora, ele defende a inclinação como causa da curva e está correto, embora não explique porque.

As melhores curvas em geral combinam corpo e batoque. Foto: Zeuner Fraissat. Piloto: Stefan.

As melhores curvas em geral combinam corpo e batoque. Foto: Zeuner Fraissat. Piloto: Stefan.

Nas edições anteriores (desde 1992) da apostila Wind Company / Ar Livre, diante de tantas explicações contraditórias e absurdas, nunca me comprometi com nenhuma delas, sempre mantive a analogia com moto ou bicicleta, embora ela só se sustenha ao explicar como fazer, rompendo-se ao abordar o porque. Agora, em 2016, resolvemos “tomar partido”, explicando não apenas que a inclinação é a causa, mas também como isso funciona. Na verdade é simples, o movimento de rolagem altera o vetor de sustentação para o lado inclinado, alterando, como diz Mario Arche, "automaticamente" a direção. Talvez não seja tão fácil visualizar, por isso temos belas ilustrações e explicações mais completas na nova edição da apostila, disponível no nosso Curso Teórico Online

Stefan Semenoff

One Comment

Deixe uma resposta para Estefano Cancelar resposta