Comparando com Asas Rígidas

Como toda asa, o parapente também tem bordos de ataque e fuga, intradorso, extradorso e perfil. Mas as semelhanças terminam aqui. É quando os aviadores perguntam: Como se controla rolagem, guinada e arfagem de uma asa sem aileron, leme e profundor?


O parapente move-se em torno dos mesmos três eixos, porém de modo bem diferente. A adição dos termos “de pendulagem” ao nome dos eixos pith e roll é significativa.

O parapente move-se em torno dos mesmos três eixos, porém de modo bem diferente. A adição dos termos “de pendulagem” ao nome dos eixos pith e roll é significativa.

No parapente não há nada semelhante aos ailerons. Para pendular lateralmente usamos os batoques ou jogo de corpo, sendo que o lado da asa que sobe é o oposto do batoque acionado e/ou do lado para onde jogamos o peso do corpo.

No parapente não há nada semelhante aos ailerons. Para pendular lateralmente usamos os batoques ou jogo de corpo, sendo que o lado da asa que sobe é o oposto do batoque acionado e/ou do lado para onde jogamos o peso do corpo.

Analisar as diferenças e semelhanças de nossas asas moles com as velhas primas de estrutura rígida sempre é útil, pois cultura aeronáutica nunca é demais para o voador. Mas, no caso dos multi-pilotos migrados de outras modalidades aéreas como aviação e asa-delta, essa comparação é essencial para atenuar a tendência de aplicar feeling e conceitos certos na atividade errada. Antes de mais nada, vejamos as diferenças básicas, cuja inobservância pode fazer mal aos ossos:

• Parapentes voam entre mais ou menos 20 e 40 km/h, sendo, portanto, mais lentos do que qualquer outra aeronave (Asas-delta voam entre 30 e até mais de 100 km/h, planadores e aviões são ainda mais velozes). Isso exige que o piloto que vem dessas modalidades “regule” seu feeling para não tentar decolar com vento muito forte e não ficar achando o tempo todo que está lento e tem que acelerar.

• Pilotos de asas rígidas são condicionados para acelerar em pancadaria. No caso do parapente é ao contrário, deve-se manter uma ação nos freios, pois o que gera estabilidade para nós são ângulos grandes de incidência, então é melhor sair da turbulência lentamente, mas com o velame aberto, do que sair rápido, mas dezenas ou centenas de metros abaixo, perdidos durante brigas com colapsos.

Não temos leme no parapente, para guinar (chamamos de girar) freamos um lado, produzindo avanço do lado oposto.

Não temos leme no parapente, para guinar (chamamos de girar) freamos um lado, produzindo avanço do lado oposto.

Agora vamos comparar os comandos, mesmo que comparar manche e pedal com batoques e jogo de corpo pareça comparar volantes e aceleradores com as rédeas e esporas de nossos pégasos desossados.

A maior confusão acontece com relação aosailerons, não há nada parecido no paraglider e, pior, o movimento do bordo de fuga do velame ao ser acionado pelos batoques para produzir curvas é o inverso do aileron, se considerarmos que o avião vira para o lado do aileron que sobe, enquanto o batoque baixa o bordo de fuga para o lado que se quer virar. Isso resulta num engano comum, quanto aos motivos do parapente fazer curvas, seja com os batoques ou com jogo de corpo: Achar que a curva acontece pelos mesmos motivos que a rolagem do avião (ou planador, ou asa-delta com aileron), ou seja, porque o ângulo de ataque aumenta no lado de fora da curva, aumentando conseqüentemente a sustentação deste lado e fazendo-o erguer-se, resultando na rolagem para o lado oposto. Só faltou lembrar que tudo isso acontece porque o aileron do lado de fora da curva desceu, enquanto no parapente nenhum lado do bordo de fuga sobe, e o lado da curva desce.

Não temos profundor no parapente, então acionamos ambos os batoques para pendulagem frontal (cabrando), ao liberar, resulta em picada.

Não temos profundor no parapente, então acionamos ambos os batoques para pendulagem frontal (cabrando), ao liberar, resulta em picada.

Portanto, na curva do parapente a incidência  aumenta do lado de dentro da curva, e não do lado de fora, o que explica a tendência de assimétricas do lado de fora, pedindo uma freadinha nesse lado para evitá-las durante os giros. Para entender como é que, funcionando ao contrário, o efeito pode ser o mesmo (curvas para onde se deseja), temos que considerar que a pilotagem do parapente é pendular e que a centrífuga tem papel fundamental nas curvas.

Mas o resumo é simples: Curva com o batoque acontece por dois motivos:

1- Freando apenas um lado, o outro voará mais rápido resultando em giro no yaw e curva para o lado freado.

2- Este é menos evidente: O freio num lado desloca o centro de pressão um pouco para o lado oposto, resultando num tantinho de rolagem, mais precisamente uma pendulagem lateral da qual só se retorna quando termina a curva e a conseqüente centrífuga gerada por ela. Claro que esta “pendulagem contida” é com o piloto para fora da curva e o velame para dentro. Ou seja, puxar um dos batoques parece com dar pedal e manche, resultando em guinada e rolagem para o lado da curva.

Quanto às curvas de selete, nessas acontece apenas a pendulagem lateral (rolagem) para o lado que nos inclinamos. É bom notar que, ao rolar, o vetor da sustentação, que em voo reto aponta para cima e para frente, durante a rolagem aponta para cima e para o lado da rolagem, resultando em curva para o lado da rolagem. Esse é um dos pontos de maior discussão teórica do parapente, todo mundo sabe que a curva de selete funciona, mas poucos sabem porque. Aliás temos um post exatamente sobre isso, basta clicar aqui para ler.

Stefan Semenoff

Seu comentário é precioso para nós!