Altos Sonhos, Altas Técnicas!

A expressão zona de conforto tem estado em evidência, geralmente mencionada como uma atitude preguiçosa que não nos ajuda a evoluir. No voo se aplica como se fosse feita sob medida.


É bom estar satisfeito com a própria pilotagem, desde que não estejamos perdendo voos por falta de arrojo nem nos arriscando por excesso de audácia. Permanecer na zona de conforto pode, a primeira vista, nos afastar do risco causado pelo ímpeto mas, na verdade, resulta em não melhorar e nunca ficar tão pronto para o inesperado como seria desejável.

Há pilotos que deixam de decolar numa condição mais dura ou não fazem questão de aprender uma nova técnica, isso só é positivo na medida em que sejam decisões pontuais, em momentos onde tentar o novo seja realmente perigoso.

Foto de Renato Skatolin, que foi aluno Wind Company em 1995.

Foto de Renato Skatolin, que foi aluno Wind Company em 1995.

Mas tomar a zona de conforto como regra acaba geralmente resultando numa reação contrária, em algum momento o piloto decide decolar em condições acima de sua possibilidade, seja por não querer perder o voo, porque não tem como descer da rampa tendo o resgate já descido o carro, por querer impressionar alguém, ou simplesmente por estar no ar e ser surpreendido por uma turbulência ou aquela ventaca invertida no pouso, condições para as quais fugiu de treinar sob os mais diversos pretextos.

Acomodar-se na zona de conforto pode também resultar num piloto bom de térmica, mas ruim de decolagem e controle perto do chão, ou vice-versa. Nesse caso ele nunca completa sua formação. Ou decola aos trancos e passa horas nas nuvens antes de pousar mal, ou só faz “voo mosca”, decolando e pousando em seguida, sem se afastar da rampa.

Desde 1995 o Renato Ska não parou de voar, evoluindo a cada decolagem…

Desde 1995 o Renato Ska não parou de voar, evoluindo a cada decolagem…

De um modo ou de outro, nunca melhoramos mais do que pretendemos e mesmo que não acreditemos poder enroscar e trocar de térmica como um Frank Brown, não sei de melhor caminho para melhorar o voo de XC do que almejar voar melhor que ele e tentar aprender primeiro o que ele sabe, nem que seja ensinado pelas palavras dos instrutores, que dificilmente tem tempo para grandes XC, mas certamente sabem como se deve fazer, assim como o professor do Guga, que não joga tênis como o Guga, mas deve saber como jogar.

… embora ainda veja muita gente acima dele, incentivando a nunca parar de aprender.

… embora ainda veja muita gente acima dele, incentivando a nunca parar de aprender.

A zona de conforto existe também no campo teórico, consistindo em permanecer conformado com os próprios preconceitos. Por exemplo, há pilotos que ainda acreditam que é apenas a pressão interna que mantém o velame aberto. Certamente ou ignoram ou fingem ignorar (zona de conforto…) que a partir de 2011 a Ozone passou a fabricar o XXLite, velame sem intradorso, portanto sem pressão interna, mas que voa aberto, embora não se possa dizer inflado, pois como você pode inflar metade de uma câmara de ar aberta?

O objetivo desse artigo foi provocar, instigar a sair da toca confortável, partindo em busca da melhor pilotagem que você poderia jamais imaginar que um dia fosse alcançar. E que só pode ser aprendida praticando perto do chão, perto da nuvem e estudando a teoria de como tudo isso se conecta resultando no voo.

Stefan Semenoff

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